Texto para a livro Enlouquecer o Subjétil
O título do livro desconcerta. À primeira vista, parece enigmático. Não é. Subjétil tem todas as características de um neologismo típico do século XX, mas é uma noção clássica da pintura, que faz parte do jargão da Renascença italiana. Atravessou os Alpes e entrou na língua francesa e agora, através da parceria Artaud/Derrida/Lena, entra para a língua portuguesa. Subjétil significa um suporte e ao mesmo tempo uma superfície. Às vezes pode significar “a matéria de uma pintura ou de uma escultura, tudo o que nelas se distinguiria tanto da forma quanto do sentido e da representação”.
Enlouquecer o Subjétil – o artista sai em busca de um significado inato, singular, que não chegou a se modalizar nem se fez forma nem norma. Pura emoção. Pura força. Significação.
O encontro de Lena com Jacques Derrida não é casual. Também não é casual o encontro de Derrida com Antonin Artaud, bem como o de Artaud com Van Gogh. Em comum, a escrita, o amarelo e o dourado. O filósofo é o que fundamenta a relação pintor/escritor, escritor/pintor, relação profunda entre escrita e desenho. Produção de cartas desenhadas. De desenhos escritos. Poemas. Derrida nos diz “que a frase encartada ( na pintura e no desenho) continua ao mesmo tempo inscrita e inquieta”. A frase “não é afagada, não se deixa domesticar assim como não domina o encarte”. Em comum, o sol que doura os campos de trigo e alimenta as bordas dos papéis pelo fogo.
Todos eles acreditam, como está na epígrafe, que “podem-se queimar os suportes de papel, o papiro, os pergaminhos, as bibliotecas de subjétil, não se destruirá a força”.
Lena é uma leitora apaixonada de Enlouquecer o Subjétil, ensaio notável de Jacques Derrida sobre Antonin Artaud. Enxerga o texto com olhos de artista plástica. Detecta-o no jogo entre tempo e espaço, entre conceito e metáfora. A moderna poética de leitura de Lena se alicerça na espacialização (espacement) da escrita, para retornar a célebre conquista de Mallarmé, e no caráter ideogramático da escrita, para retornar os textos teóricos de Ezra Pound. Lena detecta Enlouquecer o Subjétil pelo seu aspecto musical, motivos que se repetem e que amplificam sentidos lançados e retomados, novamente relançados.
Na intersecção de tempo e espaço, de grafia e música, Lena recorta frases de Enlouquecer o Subjétil. Enxerta essas frases à margem do texto do próprio filósofo. Essas frases, já recortadas e mais outras frases do mesmo texto, também inquietam os seus desenhos e pinturas, aceleram ritmos, imprimem entonações, suscitam formas num movimento musical ou coreográfico.
Cadernos. Anotações de Artaud em qualquer pedaço de papel, uma grafia controlada pelo sopro, anotações ditadas pelo espírito do momento, fugazes e ao mesmo tempo definitivas. Como Lena nos diz em depoimento: “Saio em busca do que nos desenhos de Artaud se apresenta como mal acabado, mal feito, que não foi passado a limpo, o que não se submeteu nem se domesticou às normas e as regras das Belas Artes”. São folhas de papel que poderiam ter sido queimadas, foram queimadas parcialmente. Cadernos de rascunho, bloc-notes da viajante Lena. Desenhos e escritos, rabiscos, anotações de espectadora do mundo intelectual francês, enxertos para futuros trabalhos adensados pelo ritmo menos nervoso e mais radiante do ateliê. O sol da atenção queima as folhas do caderno de rascunho, cinzas como moldura.
Bordas queimadas de papel alinhavam os desenhos e as pinturas de Lena aos desenhos e portraits de Artaud.
Silviano Santiago