Contos do Índico Interior
Em 2005, inaugura-se no Paço Imperial do Rio de Janeiro uma exposição intitulada “A Imagem do Som de Dorival Caymmi”. Oitenta composições de Dorival Caymmi são interpretadas por oitenta artistas brasileiros contemporâneos. Dorival Caymmi grande compositor brasileiro, é internacionalmente conhecido por seus temas sobre o mar, os pescadores, os mitos do universo da Bahia e da África.
Esta exposição foi a sexta mostra de um projeto que a cada ano levava ao Paço Imperial, uma série de artistas que com seus trabalhos homenageavam as músicas de um compositor brasileiro. Todo ano um novo compositor era escolhido e suas músicas eram sorteadas entre os artistas.
Fui convidada para participar da exposição de 2005, homenageando Caymmi.
Contos Africanos, painel com 20 telas de pintura, é criado para esta mostra.
Contos do Índico Interior
Um conto de muitos contos e de um canto.
Uma mulher embala uma criança com uma cantiga de ninar, embala-a suavemente, e enquanto canta lhe vem palavras de uma outra língua, junto com o embalo de um outro mar.
Guenem, guenen.
Peixe é esse meu filho? É mutum-manguenem
É a coca do mato, guenem, guenem,
Suê filho- suê, ê…
Contos do Reino de Kossô, Nigéria, palavras ibos, iorubas, contadores de histórias, terra de minas de cobre.
Me embalo nesses contos, e começo a trabalhar as telas como folhas, folhas de um livro de contos, livro de relatos, de histórias com cheiro adocicado de especiarias, gosto apimentado de mutum manguenem.
Nas telas vou trabalhando com levíssimas folhas de cobre, que pouco a pouco vão se diluindo e se transformando em cor. Cores vão surgindo, vão se somando, superpondo-se a outros relatos, relatos superpondo-se a outras cores,
se entrelaçando, mais contos e mais cores, em muitas pequenas folhas.
As narrações sucessivas se articulam numa lenta superposição de camadas finas e translúcidas. Se misturam. Imprevisível trabalho, aleatório, cheio de surpresas, experiência de um trabalho manual que vai tecendo os contos e as cores numa rede de experiências próprias e de experiências alheias. Rede de relatos que vem de longe mais relatos daquele que conhece suas histórias e tradições.
As sinhaninhas nas telas/folhas nos trazem os embalos “desse Índico interior”, “dessa fronteira líquida entre dois mares”, como diz a poetisa Ana Mafalda. E como escreve Rui Knopfli: “Trago no sangue uma amplidão de coordenadas geográficas e de mar Indico”.
Cor do cobre das minas, cor azul-esverdeado desse Índico sensual, oceano das partidas, oceano das chegadas e das trocas, oceano dos contos do oriente que a cada madrugada se interrompem para logo recomeçar a cada noite.
Retomo o conto, prestando atenção ao canto.
Peixe é esse meu filho?
É mutum manguenem, suê,
È a coca do mato, guenem, guenem,
Suê filho, suê, êeee.
Walter Benjamin nos diz que a arte dos relatos, arte das narrações, não nos deve dar explicações nem informações, deve ser aberta, surpreender, espantar, deixar um espaço livre para reflexão, disponível para uma continuação da arte/vida que cada leitura presente/futura renova e refaz.
Escreve Benjamim, “nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido. Sempre haverá relatos para contar pois os acontecimentos lembrados são sem limite, abissais e infinitos. Conservam sua força narrativa como sementes de trigo que mesmo guardadas por muitos e muitos anos preservam inteiras suas forças germinativas. E Mia Couto completa: “sementes a engravidar o tempo”.
Trabalhei as costuras, os alinhavos, as sinhaninhas como uma escrita silenciosa que portava um imenso legado de palavras”. R. Knopfli
Mas José Craveirinha diz; “nada será mais um som inútil de encontro ao silêncio”.
Escrevendo sobre Rui Knopfli o escritor brasileiro Silviano Santiago declara: “O amálgama da fala portuguesa, brasileira, angolana, moçambicana, etc., se expressa por um corpus literário disparatado, à espreita e à espera de obras que acomodassem tudo e todos”.
Devemos“cultivar o sonho dos viventes que se acostumaram ao chão”.(Mia Couto).
Em o Escriba Acocorado Knopfli escreve, “legado de palavras, pátria é só a língua em que me digo” e “Rosas não me dizem nada_ caso-me mais às agruras das micaias”.
E então Luís Carlos Patraquim :
“Mihipito: mais verdadeira que a realidade, porque inventada pela realidade do sonho.”
peixe é esse meu filho?
È mutum-manguenem, guenem, guenem,
È a coca do mato, suê filho, sûe, êeeeeeee.
Suê filho, suê, êeee.
Lena Bergstein
Rio de Janeiro, abril de 2011.