MNBA – Museu Nacional de Belas Artes 2018
Subir os degraus de pedra da antiga escola, agora museu das belas artes, repete os passos mas também inaugura um novo caminho. Se copiar e repetir constituíram modos de aprendizado até o início do século XX, abolir a memória foi um rumo posteriormente trilhado na busca moderna da sensibilidade primitiva inerente à idealização do marco zero. Nem uma postura nem a outra encontraremos nas salas povoadas por Lena Bergstein. Várias camadas estão ali… de tempo, de escrita, de desenho, de cor. O império do visual sem intermediações, a não ser daquilo estritamente necessário. Sem bulas nem manuais, a imersão é recompensada pelo esquecimento do lembrar, no qual a sensibilidade de uma inteligência eminentemente visual estabelece um novo que não é tributário de ineditismo forçado.
Ingressamos num estado de permanente suspensão que provocam novos acontecimentos e tornam a lembrar um ato fundador. Sem esforço afloram lapsos nos quais as memórias tornam vivas experiências esquecidas. Tempos diversos operaram na feitura dos trabalhos e acompanham a nossa apreciação deles. Numa das séries, a noturna “Reflexos”, o ateliê se torna um ponto de observação atual, ainda assim atemporal, no fino exercício de um fazer artístico que provoca intermediações constantes entre o exterior da cidade, o interior da casa e a obra produzida. Aquilo que a palavra não alcança desafia e atinge nossos sentidos.
Os trabalhos da exposição nos convocam a integrar suas galáxias: presos nas paredes são percorridos pelo movimento da nossa visão; dispostos na horizontal, se oferecem inertes às nossas mãos e ao olhar detalhista; pendurados no vazio, instam nosso corpo a comparar e reconhecer sua própria escala.
Lena não teme a beleza. Esta não é fácil, ainda que reúna os mais belos azuis, dourados e brancos. As formas geométricas desprovidas de qualquer pretensa neutralidade histórica , pátinas, incisões, palavras, ranhuras, fotos, tudo está inscrito ali. Uma nova linguagem cuja estrutura oscila entre várias formas de representação e reivindica o primado de uma visualidade que nos conduz às múltiplas espessuras de um caminho sem fim, como aqueles que nos reservam as melhores ficções.
LAURO CAVALCANTI
Arquiteto e crítico de arte
Lena Bergstein possui uma sólida e erudita formação. Carioca, radicada em São Paulo, transita entre a gravura, a pintura, a fotografia e a literatura, criando obras com rigor e profundo sentimento humanista. Lembranças vividas permeiam o seu imaginário. Rompe o limite dos suportes, distorce os espaços com maestria, busca no silêncio do seu ateliê desenvolver caminhos únicos e nos oferece uma obra pujante. A cor vibra e desaparece em seus trabalhos como fragmentos da memória, num diálogo entre o real e o imaginário.
A exposição Lena Bergstein – Ficções, com curadoria de Laura Abreu, historiadora do Museu Nacional de Belas Artes, nos apresenta obras inéditas, produzidas nos últimos dois anos. Nos convida a conhecer o seu universo, as suas inquietações. Suas obras pulsam. São belas! Com uma escrita própria, seus trabalhos transmitem poesia e lirismo.
O Museu Nacional de Belas Artes, unidade do Instituto Brasileiro de Museus/Minc é um dos pilares da memória nacional. Ciente de sua responsabilidade na divulgação da arte brasileira, ao realizar esta exposição, visa proporcionar ao público a fruição e o conhecimento por capítulos significativos da nossa cultura.
MONICA F. BRAUSNCHWEIGER XEXÉO
Diretora do MNBA/IBRAM/MinC
Confiar sentidos
“Quando pinto é de outra maneira que escrevo.”
Lena Bergstein
O trabalho de Lena Bergstein é sutil e afetuosamente tecido pelas suas vivências plásticas e poéticas. Tecitura feita em camadas. Nelas se superpõem silêncio, escrita, gestos, matéria, afetos. Sentindo-se segura nos limites que atravessa, Lena entrega significações, veladas e transparentes. Confia. São acontecimentos sobre acontecimentos, ficções sobre ficções que transcendem matéria, revelando ‘superfícies- memória’.
Na superfície de uma profundidade sem fim, Lena Bergstein desenha, escreve, pinta, expandindo fronteiras para que outras possibilidades plásticas e de escrita surjam do infindável apagamento das bordas, mesmo que por vezes elas permaneçam por meio da provocativa e estimulante imaginação. O que atravessa a matéria e o gesto é o tempo.
Ficções apresenta obras recentes e inéditas de Lena Bergstein. As pinturas, telas sem chassis, apreendem o espaço físico das paredes para se apropriar da cor, do contraste, da extensão. Ora são Páginas, ora são Livros. Abertos. As fotografias, Lena tomou para si como recurso plástico e poético quando foi morar em São Paulo. De seu ateliê pode-se avistar a cidade até beirar o infinito e, também, além dela, outras cidades, outras memórias, recentes ou ancestrais. Na série Reflexos da noite, esta paisagem- memória se revelou em imagem e escrita. Setembro são pinturas, desenhos e escritos que se superpõem criando a imagem fotográfica e, em Galáxias, as fotografias, como corpos luminosos, se movimentam num lugar do universo da arte em expansão, onde ainda se alcança a luz e podem ser vistas. É o contemporâneo, fragmentos e restos do que é, do que foi e do que não se saberá da existência.
Lena Bergstein confia sentidos às suas obras. Reinventa os limites, os transpõe. O que é escrita, o que é plasticidade? Não importa. A confiança vai além daquilo que pode estabelecer definições ou bordas, ela inscreve no tempo a singularidade de sua obra.
LAURA ABREU
Curadora do Museu Nacional de Belas Artes