Paço Imperial 2007
Marcas da memória
Uma poética fundada na arquitetura da memória, na topografia de traços e tramas, na tessitura de fios e nós: cartografia de formas e detalhes silenciosos.
Como a memória atua na intimidade do fazer plástico? Como trabalha a superfície do suporte? Como se fundem experiências, vivências, estímulos, trajetórias passadas e presentes com a nossa subjetividade, irredutível à consciência e à tematização? “De que maneira cada obra se tece a partir de enigmas cujo sentido final não está inscrito de antemão em parte alguma?”.
O que do nosso passado trabalha o presente da reflexão plástica? Uma corrente subterrânea de impressões e correspondências, de afinidades ocultas. Uma matéria tecida por um tempo irrecuperável, uma história que se sedimenta na sua espessura e onde a recorrência é mais passado do que qualquer passado rememorável. “Como cada criação altera, esclarece, aprofunda, confirma, recria, ou cria antecipadamente todas as outras?”.
Vagos rumores, apenas ecos, metáforas de imagens inscritas na memória. Movimentos preparados e amadurecidos com infinita lentidão, sedimentos que se acumulam e se dissipam como uma poeira que não rejeita ou exclui nada. Densa superfície de rasuras suturas costuras colagens. Impressões e registros, inscrições, marcas e traços de um desejo de memória e de retorno ao lugar mais arcaico do começo absoluto.
Arte como uma tessitura sem começo nem fim, constante elaboração, transformação incessante e permanente através da qual as coisas se criam e se dissolvem em outras coisas, um se perder e se reencontrar, movimento contínuo que conduz a arte através da noite, mais longe que o visível ou o previsível.
Oxidações
Oxidações sobre folhas de prata, ouro e cobre. A oxidação desfaz as folhas de metal, rasga e fragmenta suas bordas e margens, deixa na superfície da tela pequenas marcas, restos, um quase nada trabalhado. Ao mesmo tempo, vai transformando as folhas em cor, banhando a tela numa pigmentação de dourados, ocres e terras, de alaranjados, de azuis esverdeados ou verdes azulados.
A costura, à máquina e à mão, é o primeiro passo do trabalho. Como se a tela branca já viesse marcada por uma história, uma história sem história e sem memória. Uma história em branco. Puro traço. Espaçamento e silêncio. Apenas um arquivo não visível. A articulação de possibilidades, desenhadas, marcadas, estruturadas nas (pelas) costuras.
O processo das oxidações, em contraponto, é aleatório, acontece e surge sem previsão e sem projeto. Puro acaso? Às vezes as marcas somem, se consomem, são lavadas e levadas pelos ácidos. Ácidos ácidos. Vinagres e percloretos. Não deixam traços. Apenas a sutileza de um longínquo tom, ou semitom.
Então tudo recomeça. Outra vez e mais uma vez.
Um tempo entre parênteses
Metamorfose do tempo, movimento da obra em direção a ela mesma, onde se superpõem os tempos mais variados, onde se inscrevem as possibilidades mais contraditórias. Um tempo entre parênteses, quando tudo para, e o tempo se transforma em um espaço que é o espaço do imaginário, espaço próprio das imagens, todo de fora, aberto, sem intimidade e, no entanto, mais inacessível, abissal e misterioso do que qualquer pensamento do mais profundo do ser. (Maurice Blanchot)
LENA BERGSTEIN