Bloc-notes Louvain-la-Neuve, 24 juillet 1995. um testemunho
Um testemunho. Uma apresentação de meus desenhos, desenhos criados em 1995, expostos em 1996 na Biblioteca Wittockiana em Bruxelas, e em 2007 no Paço Imperial do Rio de Janeiro.
Em julho de 1995, época em que morava na França, fui à Louvain-la-Neuve assistir a um colóquio internacional de literatura, “Passions de la littérature avec Jacques Derrida”. A conferência de abertura seria feita por Jacques Derrida e tinha como título “Ficção e Testemunho”, já assunto de seus seminários daquele ano, nas quartas-feiras à tarde na École des Hautes Etudes em Sciences Sociales.
Eu estava lá em Louvain-la-Neuve, 24 de julho de 1995, sentada no grande anfiteatro da universidade, como tantas vezes havia feito em Paris, ouvindo suas palavras, para mim da mais intensa plasticidade, frases que explodiam no espaço, a beleza e a poesia dos textos, a paixão pelo escrever. As três horas e meia da conferência iam se inscrevendo no fundo de minha memória, brilhando como moedas na chuva, enquanto eu tomava notas, copiava palavras e frases soltas num pequeno bloco de rascunho, bloc-notes que levava comigo.
A conferência ia se desenhando, tomando forma no meu caderno de anotações, no meu inventário poético. Escrevia o que mais me chamava atenção, o que já tinha uma relação com coisas que ia me lembrando. Instante único da conferência, três horas e meia num instante, lembrança intacta, minha ficção e meu testemunho.
Ficção e testemunho, uma conferência de Jacques Derrida sobre literatura, sobre o último conto de Maurice Blanchot, L’instant de ma mort, livro lançado fazia poucos meses. Narração que fala de uma quase morte, da iminência da morte, da iminência do morrer como definição do desastre, de uma “morte impossível necessária”. Blanchot trabalhará nesse conto “um testemunho que fala dele mesmo e pretende contar não só sua vida, mas sua morte, o depois de sua morte, sua quase ressurreição, uma espécie de Paixão——— nos limites da literatura”.
Jacques Derrida nos revela que um ano antes, 1994, recebe uma carta de Maurice Blanchot, onde Blanchot lhe narra a comemoração de um aniversário, 50 anos de uma morte que quase lhe aconteceu.
“20 de julho. Há 50 anos eu conheci a felicidade de ter sido quase fuzilado”.
O instante de minha morte entrelaça e tece no espaço da literatura uma ficção, um testemunho, uma confissão, um acerto de contas. Poderíamos dizer que é uma ficção evidentemente testemunhal e autobiográfica.
Derrida diz “-Podemos ler o mesmo texto—como um testemunho dito sério e autêntico, ou como um arquivo, ou como um documento, ou como um sintoma—–ou como uma obra de ficção literária que simula todos os estados que acabamos de enumerar.”
Esse conto marca a repetição de tudo que já estava presente nos textos anteriores de Blanchot, confirmando e relançando pela mesma anacronia singular do tempo, o que o texto nos dá em primeiro lugar: um tempo disjoint, um tempo deslocado.
Instaura esse tempo incrível, a iminência do que já se passou, a iminência do que é já passado, um vir de um avenir que já aconteceu. A morte vai vir, mas o que vai vir já aconteceu, já teve lugar. E eu só posso testemunhar, pois sobrevivi. O testemunho implica que se sobreviveu ao fato narrado. A testemunha é um sobrevivente. Eu posso testemunhar da iminência de minha morte, pois eu sobrevivi.
“Escrever sua autobiografia, diz Blanchot, seja para prestar um depoimento, seja para se analisar, seja para se expor aos olhos de todos, à maneira de uma obra de arte, é talvez, quem sabe, procurar sobreviver, mas por um suicídio perpétuo_ morte total em tanto que fragmentária.”
“O instante de minha morte” pode ser lido também como uma espécie de prescrição de leitura para toda obra de Blanchot. Como se a experiência não provada, ineprouvée,
do acontecimento que ele está contando havia já, antecipadamente, “ produzido sua lei, sua gramática e seu destino a tudo que Maurice Blanchot escreveu antes.” .
Estou no trem de volta para Paris. Folheio meu bloco de anotações, meu inventário poético: um tempo que não pode ser medido, um tempo que passa sem passar, entre parênteses, e o que se passa entre parênteses se abre para um outro tempo.
Pergunto-me como cada criação altera, esclarece, aprofunda, cria ou recria antecipadamente todas as outras? Reflito sobre arte, tessitura sem começo nem fim, secreto e lento labor, constante elaboração, transformação incessante e permanente pela qual as coisas se criam e se dissolvem em outras, um se perder e se reencontrar, movimento contínuo que conduz a arte através da noite mais longe que o visível ou o previsível.
Lena Bergstein
Rio de Janeiro, 22 de setembro, 2005.