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Segunda Pele

Como é que se revela para um artista toda uma linguagem poética, uma série de características e de detalhes que começam a ser anunciados esporádica e espaçadamente, aparecendo pontualmente em um ou outro trabalho: detalhes que falam em voz baixa, vagos rumores, ecos das imagens inscritas na memória. Movimentos preparados e amadurecidos com infinita lentidão, sedimentos que se acumulam e se dissipam como uma poeira que não rejeita ou exclui nada.

“Como cada criação modifica, altera, esclarece, aprofunda, confirma, recria ou cria antecipadamente todas as outras,”questiona Merleau-Ponty. “De que maneira cada obra se tece a partir de enigmas cujo sentido final não está inscrito de antemão em parte alguma?”.

E então, de repente, num certo movimento que parece súbito, toda uma grafia poética se apodera, invade uma obra, se torna leit-motif, ritmo, tom, timbre, a própria musicalidade do trabalho.

“Du fond sans fond de la mémoire », de “l’oubli comme mémoire”, numa grafia de ecos infinitos, “autour d’un souvenir qui fut peut-être un rêve”, começam a aparecer as costuras, os nós, as tessituras de fios e linhas. Pergunto-me o que está inscrito na superfície dessas telas, exposto ali sem pudor, sem intimidade, ao mesmo tempo inacessível, misterioso, “fonds inépuisable de tout ce qui se dit ou se dessine”.

Faz “dix ans que le language est parti… ”. Muitas coisas se passaram nesses últimos anos e meu trabalho foi gradualmente se modificando. Reparei que a escrita de letras e palavras que impregnava o trabalho foi se tornando mais espaçada, esgarçada, se desfazendo, e pouco a pouco desapareceu dando lugar a uma outra escrita, bem diferente, mas que já aparecia pontualmente em desenhos e telas anteriores. Eram costuras, primeiro a mão, depois a máquina, a mão e a máquina, uma tessitura de pontos, linhas, nós, cerzidos, alinhavos, pespontos, pontos em ziguezague. Tecelagem que ia reconstituindo um avesso, linhas que iam reparando, reunindo, mantendo juntos os tecidos.

Nas bordas esgarçadas da minha alma, “J’étais appelée par un autre trait, cette graphie de mots invisibles”, “graffitti illisible, écriture chiffrée” como um grito sem voz ou um apelo sem som. Sim, eu quietamente gritava.

A escrita fonética de textos e palavras me parecia agora excessiva, barulhenta e as costuras a substituíam por um silêncio, uma pausa, um vazio povoado de possibilidades. Um tempo de mutismos quando tudo se imobiliza, a espera, a espreita. “Une retraite en soi qui est un exil en soi – sans fondement en rien d’autre”, diz Levinas.

«Este é um livro silencioso, e fala, fala baixo” escreve Clarisse Lispector, ou ainda como diz Rabbi Nahman de Bratislav, numa de suas parábolas, “il jouait d’un violon muet _ ou presque, car le roi finit par en capter une note extraordinairement frêle”. Era apenas um fiapo de sussurro, suave sonoridade captada no âmago do silêncio.

O único ruído que se ouvia era o toque toque toque, da máquina costurando, os ritmos cadenciados do costurar, do cerzir, do levantar a sapatilha que, por sua vez, levantava a agulha e a linha principal, o retrós, do virar o tecido mudando o rumo da costura. Às vezes era necessário enrolar outra vez a linha da carretilha, ou bobina, que ficava embaixo do retrós. O ruído da carretilha enrolando a linha a toda velocidade e depois recolocá-la numa espécie de caixinha, fechar a tampa, abaixar a sapatilha, descer a agulha e a linha e outra vez toque toque toque.

Apesar de não se chamar retrós ou linha mestra, era a linha mais fina da carretilha (ou bobina) que dava solidez e consistência à costura. Mesmo que só aparecesse inteiramente no avesso do tecido, era ela que estruturava a costura e que a prendia ao tecido, arrematando-a.

A busca de uma extrema simplicidade, de um quase nada trabalhado que desse a impressão de um se despir, era a trajetória que o trabalho tomava. E eu o seguia.

Através dessas linhas trançadas e tecidas uma outra questão foi de repente vislumbrada. Do texto «Un Ver à Soie »,de Jacques Derrida no livro Voiles, me fascina a frase “une femme tisserait comme un corps sécrète pour soi son propre textile”. Comecei a pensar que a partir das linhas costuradas – do separar, triar, arrumar, classificar – estaria tecendo uma tessitura, uma veste, um xale, o meu próprio xale.

Esse xale seria de um tecido da Babilônia, do linho mais puro, bordado de jacintos, de anêmonas violetas, de escarlate e de púrpura, das flores silvestres que traziam o índigo. Diz Derrida, seria “textile, tactile,tallith… la douceur plus douce que la douceur…une autre peau, mais incomparable à aucune autre peau, à aucun vêtement possible. Elle ne voile ou ne cache rien, elle ne montre ou n’annonce aucune chose, elle ne promet l’intuition de rien. Avant le voir et le savoir, avant le pré-voir et le pré-savoir, elle se porte en mémoire de la loi.”

Meu xale, todo singular, sensível, tecido de ouro, iridescente, incandescente, que ia se criando a partir do meu trabalho, uma manufatura de telas, um entrelaçar de fios e fibras.

A leitura do texto “Un Ver à Soie” foi da ordem de um acaso, um encontro, descoberta iluminada que estimula e provoca, que vem se acrescentar a uma elaboração já em andamento, descortinando novas nuances de horizontes possíveis. Ampliou e aprofundou minha relação de trabalho com as tramas, as urdiduras, a tecelagem, fios torcidos e retorcidos, trançados, tecidos sucessivos e infinitos.

E isto não acontecia pela primeira vez. Houve tantas vezes que senti assim, como se aquelas palavras e pensamentos fossem dirigidos ao meu próprio trabalho. Como se as telas, os desenhos, as gravuras, estivessem ali esperando por aqueles escritos, cena que se desdobrava aos meus olhos adensando e afetando meu fazer plástico. Indicavam coisas no trabalho que eu mesma não sabia. Falavam da pintura e com a pintura. Revelação de algo que era meu também

Tenda, instalação montada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, 1992, foi uma reflexão plástica sobre a questão da “écriture”, uma reflexão sobre o livro, desdobramento da leitura de A Escritura e a Diferença. Khora, painel criado num edifício na Praça da República, São Paulo, 1993, uma ficção sobre uma ficção de Derrida sobre o Timeu de Platão. O livro Enlouquecer o Subjéctil, editado em 1998, uma criação a partir do texto de Jacques Derrida, “Forcener le Subjectile”, sobre a obra de Antonin Artaud,

Houve outras vezes que eu o lia, e parecia algo que tivesse saído de mim mesma, como uma confluência, uma influência que é dentro, como um rio dentro de outro rio, como lagos subterrâneos que se encontram. “Un contact par les entrailles, diz Levinas, une peau allant sous l’autre peau“, e acrescenta “une toute nouvelle façon de transcender, ou d’élargir le  « quant à soi », de l’exister, s’annonce… »

Durante todos esses últimos anos, nessa infatigável conversação com você, nesse diálogo singular, íntimo, quase contínuo que persegui, seus textos sempre se apresentaram com enorme impacto poético, revelando delicados processos, produzindo vastas harmonias e secretas relações _ algo que vinha me provocar, questionar, renovar, uma abertura sem limites, sem regras e sem matrizes.

O que também ecoou dentro de mim, “qui se joue dans le tissu de ce texte”, “Un Ver à Soie”, é sua relação com o processo criativo, com o fazer da arte, ao mesmo tempo com a subjetividade do artista. “On ne dit mon châle à moi qu’à obéir à l’ordre de Yahvé. Et à commencer par se demander: qui suis- je, moi qui ai déjà dit « me voici » ? Qu’est-ce que le soi ? le « soi même », le « quant à soi » ?

Mas essas questões não atingem só o si-mesmo, o si-próprio, mas se inserem na relação entre a criação e o artista, entre a vida e a obra, numa grafia de vida e numa grafia de obra, diálogo constante e ininterrupto, ressonância da obra em nós e de nós na obra, “de ce qui se passe entre les deux, de ce qui se passe de l’un à autre”.

“Une génération lente du poète par le poème dont il est le père”, diz Derrida e acrescenta Jabès, « tu es celui qui écrit et qui est écrit ».

Como o bicho da seda, em “Un Ver à Soie”, (uma memória de infância de Jacques Derrida), que ao tecer seu casulo se transforma em outro, um ser outro daquele que começou seu trabalho, “em vue de se réengendrer soi-même dans la filature de ses fils”, secreto e lento labor, todo avenir, criando cegamente além do ver e do saber, no fazer e no refazer. Levinas diz, “le fait pour l’être, de se dé-prendre, de se vider de son être, de se mettre « à l’envers », et si on peut dire, le fait d’ « autrement qu’être » ”.

Lançadeira que se move na largura do tear num movimento alternativo de submergir, desaparecer e emergir de novo, a cada fio que entrelaça, a cada trama que é tecida, a cada nova pincelada, tecedura do próprio artista que nasce rasgando a pele das coisas, da tela, submergindo só para nascer uma outra vez, recomeçando tudo de novo na urdidura “d’un poème sans exemple”.

Merleau-Ponty diz, “no momento em que acaba de adquirir uma certa habilidade, o artista percebe que abriu um outro campo em que tudo o que pôde exprimir antes precisa ser dito de outro modo. E assim, o que descobriu, ele ainda não o tem, deve ainda ser buscado”.

Constante e lenta elaboração, no diminuir e aumentar os pontos de uma trama, no fazer e desfazer das malhas. Transformação incessante e permanente, pela qual as coisas se criam e se dissolvem em outras, algo que não é, mas se torna, que existe em constante alteração. Um se perder e se reencontrar, nascimento contínuo, que conduz a arte através da noite “plus loin que le visible ou le prévisible”.

E para terminar, sem terminar nunca, eu retiraria os pespontos, soltaria os alinhavos, desfaria todas as linhas de todos os textos e de todas as tramas, desfiaria todas as vestes, os tecidos, as vestimentas, retiraria as costuras das telas, dos papéis, de todos os fragmentos costurados entre a tela e o papel, ali no miolo de todos os segredos, desfazendo tudo, rápido, muito rápido, para acabar, sem acabar, nunca…

e então, somente, para que eu pudesse estender os braços, e com todas as palavras, essas palavras-sentimento, mais sentimento que palavras, lhe agradecer.

Lena Bergstein
Agosto de 2004

Querida Lena,
Seu trabalho – eis o que posso dizer dele em observação de caráter geral – é variado, muitas vezes indisciplinado, e sempre busca uma composição para o quadro que desorienta o espectador. Desorganiza o espaço em lugar de organizá-lo mondrianicamente.
Acho que essa tomada de posição estética deveria transparecer na construção do site e poderia ser uma de suas originalidades.
Ainda em observação de caráter geral, estou querendo dizer que a composição variada e indisciplinada do seu trabalho, marca do artista, se aplicada à própria composição do site o levaria a escapar do padrão catálogo-de-exposição, hoje institucionalizado como ideal para a apresentação na Internet da obra do artista plástico.
Não sei se você e o designer poderiam se inspirar, Lena, no seu próprio trabalho para se aventurar por uma nova e menos confortável formatação para o design de site de artista.
Mais livre, mais insubordinada, mais leviana, mais profunda, mais leve, menos previsível, etc. Mais você, mais seu trabalho, etc.
Silviano Santiago
Escritor, poeta, crítico literário
Copyright©2019, Lena Bergstein - Todos os direitos reservados