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A Escrita do Silêncio

Muitas coisas se passaram nesses últimos anos e meu trabalho foi gradualmente mudando. Reparei que as escritas de letras e palavras que impregnavam o trabalho foram se tornando mais espaçadas, mais esgarçadas, e foram pouco a pouco desaparecendo, dando lugar a uma outra escrita, bem diferente, mas que já aparecia pontualmente em desenhos e telas anteriores.

Se a escrita fonética de textos e palavras me parecia agora excessiva, barulhenta, as costuras a substituíam por um certo silêncio, uma pausa, um vazio povoado de possibilidades. “Este é um livro silencioso, e fala, fala baixo”, escreve Clarice Lispector, ou ainda como diz Rabi Nahman de Bratislav, numa de suas parábolas, “ele tocava um violino mudo___ ou quase, pois o rei acabou por captar uma nota extremamente delicada”.

O único ruído que se ouvia era o toque toque toque, da máquina costurando, os ritmos cadenciados do costurar, do cerzir, do levantar a sapatilha que, por sua vez, levantava a agulha e a linha principal, o retrós, do virar o tecido mudando o rumo da costura. Às vezes era necessário enrolar outra vez a linha da carretilha, ou bobina, que ficava embaixo do retrós. O ruído da carretilha enrolando a linha a toda velocidade e depois recolocá-la numa espécie de caixinha, fechar a tampa, abaixar a sapatilha, descer a agulha e a linha e outra vez toque toque toque.

Apesar de não se chamar retrós ou linha mestra, era a linha mais fina da carretilha (ou bobina) que dava solidez e consistência à costura. Mesmo que só aparecesse inteiramente no avesso do tecido, era ela que estruturava a costura e que a prendia ao tecido, arrematando-a.

A busca de uma extrema simplicidade, um quase nada trabalhado que desse a impressão de um se despir, era a trajetória que o trabalho tomava. E eu o seguia.

Através dessas linhas trançadas e costuradas, uma outra questão foi de repente vislumbrada. No texto Un Ver à Soie ,de Jacques Derrida, do livro Voiles, me fascina a frase “ une femme tisserait comme um corps secrète pour soi son propre textile”. Comecei a pensar que a partir das linhas costuradas estaria tecendo uma tessitura, uma veste, um xale, o meu próprio, o meu xale.

Esse xale seria de um tecido da Babilônia, do linho mais puro, bordado de jacintos, de anêmonas violetas, de escarlate e de púrpura, das flores silvestres que traziam o índigo. Seria têxtil, táctil, “doçura mais doce que a própria doçura”, uma outra pele, incomparável a qualquer outra pele. Ele não velaria nem esconderia, não mostraria nem anunciaria___ ao contrário, ele traria a memória.

Meu xale, todo singular, sensível e calmo, que ia se criando a partir do meu trabalho, uma manufatura de telas, um entrelaçar de fios e fibras…

A leitura do texto Un ver à soie foi da ordem de um acaso, de um encontro que estimula e provoca, que vem se acrescentar a uma elaboração já em andamento abrindo novas nuances de horizontes possíveis. Ampliou minha relação com as tramas, as urdiduras, a tecelagem, fios torcidos e retorcidos, trançados, tecidos sucessivos e infinitos.

O que também ecoou dentro de mim, e “que se joga no tecido desse texto”, é sua relação com o fazer da arte, com a criação, ao mesmo tempo com a subjetividade do artista. Constante e lenta elaboração, no diminuir e aumentar os pontos de uma trama, no fazer e desfazer das malhas. Transformação incessante e permanente, pela qual as coisas se criam e se dissolvem em outras coisas, algo que não é, mas se torna, que existe em constante alteração. Um se perder e se reencontrar, nascimento contínuo, que conduz a arte através da noite, mais longe que o visível ou o previsível.

Lena Bergstein

Querida Lena,
Seu trabalho – eis o que posso dizer dele em observação de caráter geral – é variado, muitas vezes indisciplinado, e sempre busca uma composição para o quadro que desorienta o espectador. Desorganiza o espaço em lugar de organizá-lo mondrianicamente.
Acho que essa tomada de posição estética deveria transparecer na construção do site e poderia ser uma de suas originalidades.
Ainda em observação de caráter geral, estou querendo dizer que a composição variada e indisciplinada do seu trabalho, marca do artista, se aplicada à própria composição do site o levaria a escapar do padrão catálogo-de-exposição, hoje institucionalizado como ideal para a apresentação na Internet da obra do artista plástico.
Não sei se você e o designer poderiam se inspirar, Lena, no seu próprio trabalho para se aventurar por uma nova e menos confortável formatação para o design de site de artista.
Mais livre, mais insubordinada, mais leviana, mais profunda, mais leve, menos previsível, etc. Mais você, mais seu trabalho, etc.
Silviano Santiago
Escritor, poeta, crítico literário
Copyright©2019, Lena Bergstein - Todos os direitos reservados