Ficções
A exposição FICÇÕES reafirma minha poética, desenvolvida a partir de questões da arte e da escrita, dos espaços em branco e do silêncio das margens. Nessa encruzilhada é que a inscrição poética encontra sua morada nômade.
Exploro a simultaneidade e a combinação de vários campos confluentes, ou não, assinalando a pluralidade de relações que se pode estabelecer dentro de uma obra e em fuga dela. Ficções, relatos e testemunhos entram em diálogo na pintura, na escrita e na fotografia, criando − na confluência do real e do imaginário − um pensamento contemporâneo em devir.
Na maioria dos trabalhos expostos em FICÇÕES, dialogo imaginariamente com o poeta russo Ossip Mandelstam. Em nossa conversa, aponto para as cores dos seus escritos como sensibilidades que se tocam. Vamos da leitura que Giorgio Agamben faz do poema “Vek” à nossa origem na Geórgia e prosseguimos a viagem por Samarkanda. Reencontramo-nos, finalmente, no poema “Viagem à Armênia”, do livro Selo egípcio.
Osip, − escrevo ao poeta – não esqueça o melhor. Me fale das cores.
Fotografia – somam-se varias ‘fotos’ impressas num mesmo plano, que se juntam num só e único trabalho. Natural que suplemente a fotografia com textos e frases, criando sequências narrativas que, ao ganharem certa complexidade, abrem espaço para o ensaio. Realço a alegria ingênua que experimento, superpondo ao trabalho desenhos de estrelas, pontos luminosos, luas e intervenções em riscos e traços. Os desenhos acrescentam algum humor à seriedade da fotografia.
Telas – são folhas, páginas abertas, onde a escrita se mostra em relação íntima com o desenho, trazendo até o espectador a memória do tempo de origem, quando desenho e escrita perfazem uma coisa só. São folhas escritas, riscos, rabiscos, traços, pequenas figuras geométricas, a enfatizarem o caráter gráfico do trabalho.
Livros – são obras múltiplas, abertas, inacabadas. Imagem e texto com suas formas móveis, seus ritmos, seus espaços. Neles, afetos e sentimentos são vividos de página em página. As linhas se interrompem. A escrita sussurra. Fala por fragmentos. Por meias palavras. Compõe frases, espaços, planos, riscos, onde cada página difere da outra a fim de que se crie sua própria legibilidade.
Sobre minha obra declara Roberto Corrêa, poeta e professor de arte e de teoria literária: “Tela, ficção e sonho. Enérgicos e serenos. Em todos os escritos plásticos de Lena Bergstein, a força sacra do rito – a que mais do que a linguagem situa nossa humanidade.
Lena Bergstein